Transcrição
Quem É o Policial?

Com João Estrella
10 min de vídeo · 2 mil palavras
Quem É o Policial? é um episódio do Canal Foco no formato Quem não é, sobre justiça e segurança, com João Estrella (ex-detento), publicado no YouTube em 28 de novembro de 2024. O vídeo tem 10 min e 1,18 mi de visualizações.
Transcrito em 9 de outubro de 2026. Todas as transcrições
Cada minuto é um botão que toca o vídeo a partir daquele trecho.
Meu nome é João Estrella, sou um ex-preso e fui pego pela polícia por ter assaltado uma empresa e fiquei dois anos na prisão. Uma dessas pessoas na fila é um policial e eu vou descobrir quem é. Entre tapas e bico, duvido que eu não adivinhe quem é esse policial. [música de introdução]
Pô, esse primeiro aqui já acho que são fortes candidatos.
Sim, não dá pra pular muro com essa calça, né?
Amigo de lá. Mais padrão.
Meio praiano, né?
É.
É férias, é férias.
Tá de férias?
De férias?
Ah, outro amigo também aposturado, amigo.
O amigo não tá prestando continência, quase, né?
Ele tá ali na postura já como? [risos]
Pra lembrar a época da formação, né?
O amigo também do lado também. Faz academia quantas vezes por dia?
Cinco, seis vezes na semana.
Mas o problema com esse cara é que acho que nem cabe na viatura.
Tá bom. Muito grandão, né? [risos] O amigo lá tá pra queda da reserva já.
Já aposentou já?
Ainda não.
Ainda não?
Ainda tá na ativa?
Tô, tô na ativa.
Trabalha mais no escritório ou...
Não, na pista ainda.
Costuma da-usar calça todos os dias?
Sim.
Pô, daí tu foi, foi pego no flagra assim, tu vai fugir de quem aqui? Só pela aparência, o cara-
Se fosse uma porrada, eu corria do roxo ali. [risos] Esse aqui é do roxo. [risos] Agora tem cara de psicopata, aqueles polícia psicopata, mano. [risos]
Ele é pequeno, mas ele é ruim.
É, ele tá com a cara de ser ruim, mano.
Esse cara aqui do meu não deu um sorrisinho até agora.
É, tá mantendo a postura mesmo, firme.
O que você achou do aclimos aqui?
Estiloso. Estilo, estilo.
Quase como se fosse um Nexitel aqui, né?
Costume já, tá acostumado a botar as coisas na cintura assim, né?
Ah, é meio dia de serviço, tá um solzinho, né? A gente tem que tá com o óculos.
Cadê? Bota óculos aí pra gente ver como é que vai ficar. [música de introdução]
Cara.
Exterminador do futuro. Exterminador do futuro. [risos]
Já foi preso e tal, tu já viu um cara nesse perfil assim?
Pô, já. Na civil, a civil tem uns cara assim.
Civil.
É, civil. Sepá, né? Tá criando intimidade já. Acho que eu saio preso daqui, não tá adianta. [risos] Reconhece que é um polícia, ele te leva até o batalhão. [risos]
E aí, cara, já pensou em eliminar alguém aqui?
Cara, o amigo de roxo, cara, ele passa seis dias na academia, policial cansa no tráfego, policial não malha todo dia, não. Entendeu?
Não sei se o batalhão também tem a estrutura toda que esse cara precisa pra malhar.
É, vai aquele do BOPE, tá ligado? Tem academia lá dentro. Mas eu acho que ele não é polícia, mano. Ele tá muito grande. Camisa roxa, qual o seu nome?
Meu nome é Luiz.
A gente tá eliminando você, que a gente acha que você não é o policial. [música de ação] Quantos anos cês têm? Da primeira cá até o final.
Trinta.
Trinta e seis, mano.
Quarenta e nove. Cinquenta e quatro.
Cês moram onde?
Jacarepaguá.
Caxias.
Jacarepaguá. Tijuca.
Caralho, acho que o grupo da milícia tá aqui. [risos] Assim, tem uns bairros assim que polícia não consegue morar. Até agora, todos estes bairros aí são pacificados pela milícia, [risos] todos esses, todos esses bairros aí. Se, por acaso, nunca vai acontecer, eu estiver na rua andando tranquilão, tranquilão, tranquilão, como você me abordaria?
Aí cidadão, já bota a mão na cabeça, perdeu, polícia.
Caralho. [risos]
Encosta, irmão. Tem alguma coisa no bolso? Mão na cabeça.
É.
Encosta na parede, documento.
Hum.
Mais ou menos.
Não senti tanta firmeza também não. Não senti, não pararia, não. [risos]
Boa tarde, irmão. Documento. Tem algum problema com a justiça? Já foi preso?
Também não senti tanta firmeza não. É, também senti tanta firmeza assim não. Nenhum levantou a mão primeiro.
Mas ele perguntou, ele perguntou se já tinha passagem, né?
É, isso é interessante. Interessante.
Isso aí eu olho direto. Já me perguntaram também.
Já te perguntaram?
É, tem um cara-
Já foi parado? Por quê?
Pô, já fui, já.
Não pode ser milícia. Caralho, pensei que os policiais eram só aqui no Rio. [risos] Cadê? Bota a mão, faz assim com a mão. Faz os quatro, os quatro. Assim. Agora dá um tapa na cara do amiguinho. Mentira. [risos] Vamos lá, próxima pergunta. Tá há quanto tempo na polícia?
Dez anos.
Sete anos na corporação.
Doze anos.
Vinte e dois.
Sempre foi teu sonho entrar pra polícia?
Sempre foi meu sonho.
E você?
Sempre sonhei.
Vocês dois também?
Realizando o sonho da minha mãe.
Pô, mas pera aí, mãe quer entrar, o filho entrar pra polícia aí? É melhor do que pro tráfico, né, velho? [risos] É melhor que o tráfico. O que que é o artigo um, cinco, sete teu aí?
Assalto à mão armada.
Cento e cinquenta e sete, eu não sou um cinco, sete não. Quando os caras chega falando um cinco, sete, não é diferente?
Positivo.
É vagabundo.
Aí. [risos] Ó, ó começou, já tá soltando já o espírito de milícia. Quando o cara fala que já foi preso, qual atitude tu toma na, na ocorrência?
Eu pergunto por qual artigo ele foi preso.
Foi preso no artigo cento e cinquenta e sete. Qual seria a tua resposta?
Aí você já vê que ele buscou se ressocializar, né? Porque o vagabundo ele já fala: "Eu sou um, cinco, sete."
Aí, ó, tá vendo? Falei pra tu que tinha diferença.
Pô, queria perguntar se já roubou o dinheiro dos pais.
Já, porra. Várias vezes.
Não, do ex.
Porrada. [risos]
Negativo, minha mãe sempre ensinou princípios e valores.
Cada um repete pra mim. [risos] Deixa do cafezinho aí. [risos]
Tá preso?
Ó, ih. Porra. Suborno. Caralho, maneiro. Mas agora tem câmera, né? Faz assim todo mundo. [som de grilo] Ninguém tem esse costume não de fazer.
E aí, cara, já tá pronto pra eliminar mais um?
Cara, eu tô-
Tô na dúvida ainda aqui, cara. Tá, tá difícil.
É, eu tenho uma duvidazinha, mas tô em dúvida entre os dois do meio.
Os dois do meio?
É.
Eu também, cara. Essa galera aqui pareceu que tava, tipo assim, tentando falar que é policial com força, essa porra.
Sim, sim. Mas eu votaria mais no terceiro que não é policial.
É, falou menos também, né, cara.
É, e ele tá com a postura mais de segurança, mano. Não acho policial assim. Robinson, a gente analisou e a gente acha que você não é o policial. Você está eliminado. [música de ação]
Pô, vou te falar, cara, que tá complicado aqui, cara.
Tá mesmo.
Só sobrou uns cara meio casca grossa, assim, eu já tô bem na dúvida, mano. Vou contar contigo aí pra decifrar quem é o-
Acho que a irmã tem que dar um tapa-
Quem é o cara.
Em você pra gente saber.
Porra, logo em mim.
[risos] Já tomei várias, porra. Então vamo lá. Qual calibre d'arma você usa?
Nove milímetros.
Uso trinta e oito e nove milímetros também.
Essa arma é pra matar o sorto, hein, mano. Pra que cê tá com dois [risos]-- tá com arma preta aqui, meu irmão? Que isso.
Não, registrada. Uma é pra se tirar serviço e a outra é uso pessoal, registrado no meu nome.
E o senhor?
Quarenta.
Caralho, quebra osso. Qual o, qual o batalhão que cê presta serviço?
Hoje eu tô adido na secretaria.
Décimo quinto.
Fica onde?
Caxias.
Caxias.
Sou policial civil.
Caralho. Civil, viu, né? Cê não viu, a gente foge. [risos]
Vem cá, cara, tu já passou pelo sistema, não tá reconhecendo esses cara, não? Porra.
Eles não foram presos comigo, porra. [risos]
Ah, sei lá.
Não lembro quem ficou pelo sistema. Eles que me levaram. Qual a sua patente na polícia, mano?
Soldado.
Sou cabo.
Sou inspetor de polícia.
Inspetor da Polícia Civil. Já prendeu quantas pessoas?
Pô, cara, muitos, cara. Posso contabilizar aí umas duzentas e trinta.
Tu acha que é perigoso prender tanta gente assim?
Cara, não.
Você já prendeu quantas pessoas?
Já perdi as conta, né, irmão. Polícia Militar no Rio de Janeiro é toda hora, tá preso. Mas aproximadamente aí pra mais de, de quinhentas pessoas.
Quinhentas pessoas. Em sete anos?
Em se-em sete anos.
Caraca, pô.
Faz a conta, mano.
Quantos por semana? Tu tá batendo a sua conta aí?
É bala baixada que bate. [risos]
Bom, você? Já prendeu quantos?
Então, eu tenho três prisões, mas a maioria é auto de resistência.
Se você entendeu.
Entendi nada.
É que ele tá matando o soto, velho. Ele não prende não, ele mata, velho. Tu viu não? Melhor e pior coisa sobre ser policial.
Cara, a pior coisa de ser policial é a escala. [risos]
Aí, ele gosta de PM casca grossa mesmo.
Porque ele tá na secretaria já, porque... [risos]
É, o militarismo ele acaba sendo um pouco prejudicial. Mas a melhor coisa é você tá do lado do bem e combatendo o crime diariamente.
O que te tira o sono?
O que tira o sono? Café. [risos]
Vagabundo já... [risos]
Não, vagabundo eu lembro.
O que me tira o sono é a insegurança, né, na hora de cê deitar. Tá ali, mas ao me-mesmo tempo que tá dormindo, tá acordado. Então qualquer barulhito, opa, tem alguém tentando entrar.
É, outro dia eu ficava certo também achando que era a polícia dentro da minha casa. [risos]
O vocabulário dos cara é muito bom, mano.
É muito diferente. Eu só escuto o, quando eu vejo um policial, eu só escuto o [som de tapa]
Eu vou me preparar pra ser revistado depois dessa entrevista.
Ué, mas quem vai preso sou eu, ele não te revistar, não te liberando, filho. Né assim?
Não, mas pelo perfil dele, com certeza uma conta tem no bolso.
Tá vendo? Você vendeu pra ele.
Você que, ó lá, tá vendo? Eu ia falar agora, você que vendeu pra ele, ó lá.
Como cê daria um tapa numa pessoa?
Depende do ângulo. [risos]
Ó, fica desse jeito.
Não pode, não pode falar que dá tapa.
Não é nada.
É permitido?
E se tivesse um mosquito na cara do cara? O que cê faria se visse uma barata na cara de um bandido?
Certamente eu ia ajudar ele a tirar a barata do rosto.
[risos] Ajudar.
Com a varanda.
Mas na maioria das vezes o cara é atacado por um enxame de abelha.
[risos] Os cara tudo estiado.
Mano, acho que o do meio é o que menos me convenceu, ainda pode ser um policial, mas é o que eu menos senti firmeza.
É, o que eu menos senti firmeza foi o, o tempo que ele tá há sete anos pra quinhentas prisões, é muita coisa.
É.
O Wesley, a gente conversou aqui e a gente acha que você não é um policial, então você tá eliminado. [barulho de explosão]
Cuidado com a rua, hein, rapaz.
A ameaça, eu acho que errei, velho. [música animada] É, eu sei o que é policial civil. Eu fui preso pela Polícia Civil. Me responde só uma coisa: por que a Polícia Civil entra na sua casa às cinco e meia da manhã pra te prender?
Pegar o meliante dormindo. Geralmente estão dormindo esse horário.
[risos] Mas se você rever, meu filho, meio-dia tá do mesmo jeito, dormindo. [risos]
Acho que eu pareço que eu conheço esse cara de algum lugar, mano. Acho que ele não é polícia. Esse cara aqui também, eu achei que ele levou mais na zoeira também, sacou?
Quantos anos tu ficou no CEFA-no CFAP?
Um ano.
É, nós não somos CFAP, né? Cadepol. Cadepol ficamos seis meses.
Ah, é verdade. Civil. Acho que ele é cara do CFAP também.
Pô, se o cara não é civil, ele entende, ó.
Ele entende muito, mano. Se ele não é civil, ele já foi preso pra Civil, pela Civil. [risos] Primeira vez que eu vi um policial rindo assim foi ele me batendo. [risos]
Mas eu acho, cara, eu tô achando que ele é policial.
O brother da direita?
É, mano. Acho que é policial.
Fechou, tô contigo, irmão. Acho que tu tem... uma visão. Acho que ele precisava, pelo tempo de casa. Eu acredito que o policial seja o Licenco. Já veio até com a roupa da Polícia Civil, mano. Então, o primeiro daqui da esquerda tá eliminado. [barulho de explosão]
Ai. [música tensa]
Quando eu falar já, o policial pode ser revelado dando um passo para frente, certo? Três, dois, um. [música tensa] Malino, caralho. Sabia, porra. Mas não dava pra ver se é mesmo.
Mas aí, tu realmente foi preso mesmo, né, cara?
Porra, de verdade.
Tem a visão.
E pela civil ainda, porra. A gente não reconheceu um policial civil.
Exato.
[música de encerramento]